Discriminação na Kartoffelfest

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Foto de diculgação da Kartoffelfest, publicada no site da prefeitura: www.santamariadoherval.rs.gov.br/kartoffelfest/‎

 

Discriminação na Kartoffelfest

20.05.2010PictureÉ sempre com grande alegria que visito minha terra natal. É uma ótima oportunidade para celebrar, ver a família e os grandes amigos que ficaram para trás. Sinto orgulho do lugar onde passei minha infância, o Speckhof, também conhecido como Boa Vista do Herval. No último dia 16 de maio mais uma vez voltei de férias para lá e obviamente fui participar da grande e já tradicional Kartoffelfest, a Festa da Batata.O Herval, assim como várias outras comunidades de origem alemã, italiana ou japonesa do interior do Rio Grande do Sul, é fascinante e único. Lá há o que chamamos de bilingüismo, ou seja, as pessoas falam, ao mesmo tempo, a língua dos seus antepassados e o Português, a nossa língua nacional. As línguas não são só formas de comunicação, elas são muito mais; elas carregam consigo toda uma história e a cultura das pessoas que as falam. Se uma língua deixa de ser falada, é como se a cultura que ela carrega consigo fosse dizimada. Há coisas, p.ex., que sabemos expressar tão bem no dialeto do Hunsrück falado no Herval e que não podem ser ditas com a mesma precisão em Português. O mesmo acontece com qualquer língua: cada uma possui características que são só suas.

Por muito tempo, especialmente depois da política discriminatória iniciada por Getúlio Vargas, absurdamente proibindo o uso, p.ex., da Bíblia ou de hinários de igreja em alemão, os dialetos e outras línguas faladas no Brasil foram proibidos, teoricamente não podiam ser falados, oficialmente não podiam ser ensinados nas escolas. Isto representou uma “involução”, uma espécie de apologia à “mono-cultura”.

E por muito tempo as coisas não foram diferentes no Herval: falar Alemão ou Português com sotaque era visto como coisa de “colonos”, considerados pessoas ignorantes, ou seja, havia uma inversão absurda de valores. Só falar Português era visto como correto, falar outras línguas era coisa de gente mal instruída. Mal sabem os que riam das pessoas bilíngües que há muito mais lá fora e que saber falar duas, três, quatro línguas é uma excelente vantagem no mundo competitivo de hoje. Um dos pontos altos deste absurdo intelectual foi a tentativa de um ex-prefeito do Herval de querer proibir os alunos de falarem o Alemão, a língua-mãe deles, nos intervalos das aulas (conforme reportagem da ZH de 26.06.1989). O artigo dizia que o ex-prefeito pretendia “coibir” o uso de Hunsrück nas escolas, dando orientação para que os alunos fossem ameaçados com castigos, caso não cumprissem com a determinação. Aquilo nada mais representava que a tentativa de anular a cultura de um povo. Para minha surpresa, mesmo no ano de 2010, deparo-me com mais um episódio lamentável, como o citado acima, na Kartoffelfest. Segundo relatos de pessoas presentes à festa, um dos jovens integrantes do POE (Policiamento de Operações Especiais), com armas pesadas em punho, resolveu chamar a atenção de um casal de idosos que conversava alegremente em Alemão, pedindo para que estes “falassem direito”, tudo isto em uma festa que carrega em seu próprio nome a celebração cultural de uma comunidade. Aparentemente o episódio exigiu, inclusive, a intervenção louvável do atual prefeito junto ao POE, solicitando que estes se ocupassem somente de sua tarefa, a segurança do local da festa. Sugiro ao comandante do POE que instrua seus comandados, pedindo para que estes deixem a arrogância e a aparente falta de compreensão cultural de lado e, pelo menos, cumpram o que diz nossa lei máxima no país, a Constituição Federal, a fim de não discriminarem cidadãos de bem. Isto está previsto nos artigos 3º, Parágrafo IV e 5º, Parágrafo IX, que proíbem quaisquer tipos de discriminação e a livre expressão de comunicação, entre outros direitos.

Além do mais, há um agravante neste caso, pois subjacente está a discriminação intelectual ainda hoje imposta aos falantes de duas ou mais línguas em nossas terras. Nós, os hervalenses bilíngues, não temos culpa e não condenamos ninguém por falar uma só língua, mas exigimos respeito por nossa cultura e língua. Aliás, muitos daqueles que frequentemente criticam os “colonões” ou os “alemães-batata” – expressões que já ouvi muitas vezes da boca de alguns que pensam estar em um nível superior, pois se sentem parte “da cidade” e “civilizados” – lamentavelmente nem sequer conseguem falar corretamente a variedade padrão da única língua que sabem.

Só para citar dois exemplos, na Europa de hoje é quase impossível ser competitivo profissionalmente quando se fala uma só língua. Em Aruba, Bonaire e Curaçao, as Ilhas ABC do Caribe, quase todos os cidadãos sabem falar quatro línguas paralelamente: Holandês, Papiamentu, Inglês e Espanhol. E alguns entre nós ainda querem coibir o Alemão Hunsrück falado em nosso meio. Não são lamentáveis atitudes deste tipo?

Nós deveríamos ter orgulho da nossa cultura e das línguas faladas em nossas comunidades. Se esquecermos do passado, deixaremos de ser quem somos.

Os casos acima ilustram a velha história de querer rir de quem se dedica ao conhecimento e vive a multiculturalidade. O mundo já mostrou e continua a mostrar que a ignorância faz de nós, os eternos subjugados. Quanto mais tentarmos “apagar” nosso passado, seja ele de origem africana, europeia, indígena, árabe ou asiática, tanto mais eliminaremos aquilo que nos torna nós mesmos, aquilo que somos hoje. Quanto mais soubermos, melhor para nós e para o país. Quanto mais discriminarmos, mais nós mesmos nos afundaremos na ignorância. Simples assim.

 * Marco Aurelio Schaumloeffel é professor de Alemão, Português e Linguística. Atualmente leciona Português, Cultura Brasileira e Cinema Brasileiro em Inglês na University of the West Indies, em Barbados, no Caribe. Ele elaborou a sua dissertação de mestrado em Linguística pela UFPR sobre o dialeto Hunsrück falado em Boa Vista do Herval.


Source: Marco

Atitudes ambientais em Barbados.

Artigo publicado:
SCHAUMLOEFFEL, Marco Aurelio. Atitudes ambientais em Barbados. Revista Qualitá Socioambiental, Curitiba- PR, p. 58, 01 set. 2006

Atitudes ambientais em Barbados

Marco Aurelio Schaumloeffel*

Em Barbados, nas Índias Ocidentais, uma pequena ilha do Caribe com cerca de 270.000 habitantes e 0,5 km² menor que a ilha de Santa Catarina, a preocupação com o meio-ambiente é intensa. Vários fatores concorrem para que a atitude do governo e da população seja em prol da preservação e melhoria do meio em que vivemos. Alguns deles também são verificáveis no Brasil, outros seriam de fácil implantação, enquanto que outros poucos exigiriam um esforço mais amplo e mudanças de longo prazo para que se efetivassem. Nas próximas linhas estão algumas amostras esparsas disto.

Causa boa impressão passear pelas ruas da capital Bridgetown e de outros distritos. Elas têm um aspecto bastante limpo, mesmo que algumas vezes seja possível ver copos descartáveis e outros tipos de embalagens, mas lixo espalhado na rua não é regra. Perto de lanchonetes que oferecem junk food, há maior incidência de junk people e maior chance de haver lixo depositado em lugares impróprios. O principal fator que faz as pessoas terem consciência de que não é nada agradável nem higiênico conviver com o lixo espalhado pela cidade é o nível de educação: mais de 98% da população é alfabetizada, o que faz, claro que não automaticamente, mas como uma conditio sine qua non, com que a qualidade de vida (nela se inclui a consciência ambiental) e a renda per capita sejam altas. A educação é uma das causas e não a conseqüência de boa qualidade de vida e de bom nível de renda. Pelos dados da ONU, Barbados está em 30° lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o melhor entre os países considerados em desenvolvimento, enquanto que o Brasil está em  36°. Mesmo o município com o melhor IDH no Brasil, São Caetano do Sul (SP), tem um índice menor do que Barbados; já o pior, Manari (PE), equipara-se ao nível dos últimos países da lista. O índice de alfabetização relativamente baixo do Brasil, porém, não exime de culpa quem teve educação e tem consciência de como poderia agir, mas mesmo assim insiste em jogar aquela latinha de cerveja pela janela do carro ou todo dia usa 5 copos descartáveis de plástico para tomar cafezinho no escritório, quando poderia usar sua xícara pessoal, que, claro, é menos prática e tem de ser lavada.

Uma das coisas que funciona muito bem aqui e que desandou no Brasil, embora também funcionasse há pouco mais de uma década, é a devolução de garrafas vazias. Por comodidade, optou-se por quase que exclusivamente fazer e comprar garrafas pet, que causam inúmeros danos ao meio-ambiente, latinhas e embalagens tetra pak. Aqui todas as garrafas, sejam de plástico ou de vidro, sejam grandes ou long neck, são recolhidas e reutilizadas ou recicladas. O sistema é simples, como já era no Brasil antes de optarmos pela comodidade: há um depósito a ser pago, de mais ou menos R$ 0,25 sobre cada garrafa comprada, não interessando onde foi adquirida. Depois de vazias, o consumidor pode entregá-las em postos de coleta. Todo supermercado, por exemplo, recebe garrafas de volta. Ao devolvê-las, o consumidor recebe um ticket referente ao valor das garrafas devolvidas, que pode ser usado para comprar qualquer produto, não sendo necessário adquirir a mesma bebida para poder ter o “direito” de devolver as garrafas. Isso é eficiente, funciona. Por que nós não fazemos? Preguiça e descaso com o meio-ambiente. O Brasil é um dos países com os mais altos índices de reciclagem de latas de alumínio, o que é louvável. Infelizmente não temos este alto índice de reciclagem por conta de nossa consciência ecológica, mas sim pela miséria que faz com que os mais pobres entre os pobres desesperadamente catem latas por todos os cantos.  O ideal seria continuar reciclando, sem a necessidade de se apoiar na miséria, mas por consciência de que assim causaremos menos prejuízos ao planeta. Por falar em embalagens: aqui o leite e os sucos vêm em garrafinhas de plástico ou mesmo em caixinhas de papelão com parede interna revestida de plástico (mas não com alumínio, como acontece nas terríveis embalagens tetra pak, que causam alergia a quem tem hipersensibilidade a este metal), os produtos permanecem refrigerados e têm uma validade de cerca de 15 dias.

A conscientização da população em relação à limpeza também tem um forte apelo: o turismo. Grande parte da entrada de dinheiro no país vem dos turistas americanos e europeus. Todo mundo sabe que quase ninguém viria para cá se as praias estivessem sujas e as águas poluídas. As redes de água e esgotos aqui são bem estruturadas. A água distribuída é potável e em grande parte vem do mar, passando por processo de dessalinização. O esgoto é tratado e devolvido, através de emissários, em pontos no alto-mar, a boa distância da costa. Há cerca de 30 anos não era assim, mas que esta medida fez com que as águas das praias azul-turquesa desta partezinha do Caribe, assim como se vê em filmes, ficassem totalmente limpas. Em Bridgetown há um pequeno braço de mar que adentra a cidade e serve de atracadouro. Ao contrário do que se possa imaginar, as águas lá são transparentes, sendo possível ver peixes quando se está parado em alguma das pontes que a cruzam.

Aqui ocorre um debate interessante na mídia sobre um tipo de poluição geralmente ignorado por nós brasileiros: o país inteiro está discutindo uma nova lei sobre poluição sonora, que o governo implantará em breve. Em termos gerais, há bastante barulho, especificamente nas vias principais de Barbados, mesmo que a ilha seja um lugar bastante tranqüilo e silencioso. As pessoas adoram berrar para chamar a atenção de conhecidos que estão passando, as vans e os ônibus particulares têm sistemas de som infernais instalados, que o dia todo tocam músicas locais, a buzina é um dos acessórios mais usados no carro, algumas igrejas usam sistemas de som externo durante seus cultos.

Nos jornais freqüentemente há artigos que tratam de questões ambientais, mostrando que o assunto faz parte do dia-a-dia e é de interesse e preocupação da população como um todo. Talvez o tamanho do país também faça esta necessidade de preservar saltar aos olhos, pois se as pessoas começassem a destruir, não haveria muito que destruir, ao contrário do imenso Brasil, onde alguns milhares de hectares desmatados são só uma pequena mancha visível nas imagens de satélite, fazendo com que estas questões nos pareçam distantes e pouco importantes.

A companhia telefônica daqui lançou uma linha chamada “The Green Line”, totalmente operada por computador, funciona com mensagens gravadas. Ela é gratuita e dá informações de como os cidadãos podem dar destinação correta a diferentes tipos de materiais, como p. ex., o que fazer com carros e aparelhos domésticos  inutilizados, com lixo tóxico, baterias etc., indicando os locais corretos de entrega, além de dar informações de como fazer um local de decomposição de lixo orgânico em casa, de quais são as leis ambientais e as normas sanitárias do país, de como fazer denúncias e quais as companhias e grupos comunitários que são “environmentally-friendly”. O acesso à informação é fundamental.

Mesmo que ainda demandem melhoras, as atitudes do governo e dos cidadãos de Barbados em relação ao meio-ambiente podem fornecer bons exemplos para que nós também cuidemos do nosso país, abençoado por Deus, bonito por natureza, mas vítima de desleixos praticados por muitos de nós.

 

 
* O autor reside em Barbados, nas Índias Ocidentais, desde 2005. Marco Aurelio Schaumloeffel já viveu  no Gana, África Ocidental (de 2003 a 2005) é mestre em lingüística (UFPR), graduado em português, alemão e literatura e professor (leitor brasileiro) na University of the West Indies, enviado pelo MRE/Itamaraty. Além de livros e artigos nas áreas de lingüística, português, alemão, história e cultura brasileira, o autor também já redigiu artigos com temáticas ambientais para o website da ONG Curupira Ambiental, da qual é membro. Para obter mais informações sobre Barbados visite o site www.schaumloeffel.net e clique em “The Barbados Blog”. E-Mail para contato: marco@schaumloeffel.net

Source: Marco

As semelhanças e diferenças culturais entre o Brasil e a África Ocidental

As semelhanças e diferenças culturais entre o Brasil e a África Ocidental
Marco Aurelio Schaumloeffel

Depois da chegada dos navegadores portugueses ao Golfo da Guiné, na costa ocidental da África, em 1471, e ao Brasil em 1500, foi estabelecida uma ponte que ligaria culturalmente dois continentes. No Gana, antigamente chamado de Costa do Ouro, os portugueses ergueram, em 1482, na cidade de Elmina[1], o Castelo de São Jorge, a mais antiga construção européia na África sub-saariana e o primeiro de uma série de fortes e castelos erguidos por diferentes exploradores europeus, entre eles franceses, ingleses, alemães e holandeses. Dessa ocupação na África surgiu o horrendo tráfico de humanos e a exploração de bens naturais.

A maior parte dos escravos, levada como produto para o Brasil, era originária do Congo e do Oeste da África, estes genericamente denominados de “negros sudaneses”. A cadeia de negociação de humanos no mercado iniciou-se nas próprias tribos. Ao contrário do que muitas vezes se aprende nas aulas de história, o sistema de escravidão não foi introduzido pelos colonizadores europeus na África. Ele já era característica comum nas tribos ganenses antes da chegada dos portugueses. Pessoas capturadas em tribos inimigas ou contraventores das regras internas eram escravizados. Os europeus deram proporções muito maiores a esta prática, fazendo com que tribos como a dos Akan e, principalmente, a dos Ashanti, no Gana, se tornassem ricas por venderem força de trabalho aos colonizadores, que levariam negros escravizados às Índias, à Europa e às Américas. Os chefes acumulavam grandes riquezas a partir desse tipo de transação, fato que se vê espelhado ainda hoje, p. ex., na figura do rei Ashanti, que ostenta tantas e tão pesadas pulseiras de ouro a ponto de precisar de um ajudante que lhe dê sustentação aos braços no momento de cumprimentar visitantes. No Benin, até mesmo afro-brasileiros, tanto descendentes de escravos brasileiros quanto africanos libertos, atuavam como agentes escravagistas[2]. Alguns deles conseguiam juntar fortunas fabulosas com o comércio de humanos, como foi o caso de Francisco Félix de Souza, que deixou de herança uma fortuna avaliada em 120 milhões de dólares, em dinheiro de hoje.

Os escravos originários da África Ocidental, principalmente das regiões da Costa do Ouro e da Costa dos Escravos (atualmente Benin), são os que formaram, em grande parte, as populações negras da Bahia, do Maranhão e de Pernambuco. Sem poder de decisão, o negro foi arrancado de seu continente natal e inserido na sociedade brasileira; trouxe consigo sua força de trabalho, seus hábitos, seu modo de ser, sua crença, ampliando, enriquecendo e modificando, dessa forma, a cultura e o dia-a-dia no Novo Mundo. A extensão dessa contribuição é ampla, muitas vezes pouco clara para quem está inserido em seu raio de ação, ainda mais que houve, no Brasil, o encontro das culturas ameríndia, africana e européia, resultando em processos novos, porém não uniformes, o que mostra a diversidade e a impossiblidade de se descrever “a cultura” do nosso país como algo homogêneo. Viver no continente africano deixa isso muito mais exposto e faz perceber que há influências culturais de dimensões e direções variadas. Tanto a sociedade brasileira quanto as da África Ocidental sofreram transformações a partir desta ponte criada pelo tráfico estabelecido inicialmente pelos portugueses. Aqui daremos enfoque específico sobre aspectos tópicos das influências, semelhanças e diferenças existentes entre Brasil e Gana.

As artes culinárias revelam coisas interessantes sobre a cultura de um povo. Há um jogo de palavras em alemão que resume isto: “man ist was man isst” (somos o que comemos). É muito comum ver pessoas preparando pratos feitos com mandioca (macaxeira) nas ruas de Gana. A mandioca, originária das Américas, possivelmente levada à África pelos colonizadores portugueses e também por libertos que decidiram retornar ao continente natal. Ela serve de base para o famoso fufu, preparado em um pilão junto com banana-da-terra, para pirões e para a farofa, adicionada a muitos pratos, inclusive a feijão cozido que requer, assim como grande parte dos pratos, uma boa dose de pimenta malagueta. Além da mandioca, também o inhame e o milho, este também originário das Américas, são usados para fazer purês no pilão, sempre acompanhados no prato de molhos variados feitos com ingredientes como carne de porco, de bode, sardinhas, peixes secos, quiabo, cebola, pimenta e óleo de dendê. Normalmente as refeições não são feitas com talheres, mas sim, e exclusivamente, com a mão direita, pois a esquerda é considerada a mão suja. Ela também não pode ser usada para cumprimentos nem para dar ou receber presentes, o que seria uma demostração de pouca polidez. Nas ruas as pessoas montam banquinhas onde preparam lanches rápidos, entre eles amendoins torrados, castanhas de caju, bolinhos, bananas e carnes fritos em óleo de dendê. As laranjas, assim como em várias partes do Brasil, são oferecidas já descascadas ao lado de pedaços de manga, mamão, abacaxi ou pedaços de cana-de-açúcar prontos para serem mascados. Para a sede pede-se uma água de côco. Quase todas as mulheres, que formam o pilar-mestre do comércio ganense, carregam suas “lojas” em grandes bacias sobre a cabeça em um equilíbrio inacreditavelmente perfeito. É impressionante observar a dança e a sincronia de um mercado repleto de mulheres carregando objetos de toda ordem, pesos e tamanhos por sobre a cabeça. Delas é possível comprar desde esmalte para unhas até frutas, verduras, ovos e calças masculinas. Essas semelhanças na comercialização, na plantação e no consumo de alimentos exibe um dado curioso: enquanto o Gana é o segundo maior produtor de cacau do mundo (a vizinha Costa do Marfim é o primeiro), originário das Américas, nós somos o maior produtor de café, originário da África. No Benin, como descreve Guran (2000: 123-124), há, inclusive, entre outros, “feijoadá”, “moukeka” e o “kousidou”, além de sobremesas como a “concada”, levados para lá pelos agudás, os assim chamados retornados “brasileiros” daquela região.

Na África, as origens da música estão intimamente ligadas à religião. Da mesma forma ocorre no Brasil, onde os rituais das religiões afro-brasileiras também são acompanhados de música, tendo diferentes denominações, conforme a região de ocorrência: tambor de mina no Maranhão, xangô do Rio Grande do Norte ao Sergipe, batuque no Rio Grande do Sul e candomblé em outros estados como a Bahia e o Rio de Janeiro. Na música, muitas de nossas manifestações como samba, gafiera, choro, pagode, maxixe, maracatu, forró, frevo, embolada, côco, lundu, congadas etc. têm claras influências africanas, principalmente na percussão e nos ritmos. Alguns intrumentos de percussão foram trazidos da África, outros criados aqui por afro-brasileiros. Cuícas, ganzás, atabaques e marimbas são testemunhas dessa contribuição à música brasileira. As variações poliritmicas e as cadências africanas, unidas à melodia européia e à herança musical indígena, criaram um resultado inesperado e novo: a música e as danças brasileiras. Além disso, o carnaval, de origem européia, africanizou-se no Brasil, transformando-se na maior e mais alegre festal nacional. Além de sermos venerados por especialistas do mundo todo pela música que criamos, usamos a música para venerar, um legado tanto africano quanto indígena. Essa veneração exibe, hoje, graus diversos, desde o culto terreno ao culto do corpo de uma bela mulher até à evocação de entidades superiores abstratas.

Pensar em cultos religiosos no Brasil sem a presença de elementos africanos é praticamente impossível. Nas práticas católicas menos ortodoxas entram elementos de fetichismo e superstição; nas diferentes religões afro-brasileiras, assim denominadas por invocarem e praticarem ritos que não são puramente de origem africana, há elementos de origem indígena e européia. Para tal, basta observarmos ritos religiosos como a lavagem do Senhor do Bonfim[3] na Bahia ou as atitudes de um jogador antes do início de uma partida de futebol. As religiões afro-brasileiras sofreram influências umas das outras, de forma que há, na maioria delas, características nagô (ou iorubá, da atual Nigéria), ewe (do Togo e do oeste de Gana, muitas vezes também chamado de jejê) e bantu (do sul da África). Como o catolicismo era, durante mais de três séculos, a religião oficial e a única a ser aceita pelo Estado, a criatividade e o desejo de preservar as raízes culturais dos afro-brasileiros, já amalgamadas também por diferentes processos, colocou roupagens de santos católicos nas divindades (orixás) africanas, fazendo surgir uma curiosa duplicidade de nomes para a mesma entidade: Xangô também é conhecido por São Jerônimo, enquanto Iansã é Santa Bárbara, só para citar dois exemplos. Embora qualquer semelhança possa ser apenas uma mera coincidência, os cidadãos ganenses hoje geralmente têm dois nomes, um chamado por eles de “natural name” e outro de “Christian name”. Assim, p.ex., uma estudante de Português na Universidade de Gana, chamada oficialmente de Ekuba Dazie, também se apresenta como Patricia, dependendo da situação e de quem são seus interlocutores. Nos passaportes, a fim de evitar transtornos pessoais, as autoridades colocam ambos, o nome oficial e o cristão, normalmente criado pela fantasia de cada um. Já no Brasil, a criação da duplicidade de nomes de entidades religiosas serviu como forma de proteger e dar continuidade ao culto dos afro-brasileiros. Ela é prosaicamente chamada de sincretismo, termo divulgado e usado para explicar a suposta mistura entre os santos do catolicismo e das religiões afro-brasileiras. Há sincretismo nas religiões afro-brasileiras, mas não neste caso. Em sua verdadeira acepção, o sincretismo prevê um amálgama de concepções hetorogêneas, o que de fato aconteceu nas religiões afro-brasileiras, em processos de sincretismo interafricanos e quando estas incorporaram elementos das culturas dos povos indígenas e dos europeus. As  religiões tribais na África, que hoje estão em contato permanente com doutrinas cristãs das mais variadas, parecem não ter passado por tantos processos sincréticos quanto as religiões afro-brasileiras. Lá também há pessoas que praticam ritos religiosos distintos, o que não significa que, necessariamente, haja um amalgamento entre crenças, fazendo surgir um novo produto. Da mesma forma, no Brasil, também não houve fusão entre oxirás e santos do catolicismo, como comumente divulgado; houve apenas um acobertamento das divindades africanas, forma criativa achada pelos afro-brasileiros para poder dar continuidade à prática de suas crenças, já que estas estavam proibidas pelas autoridades que só reconheciam o catolicismo como religião do Estado brasileiro.

No Gana há, atualmente, a presença maciça de igrejas cristãs. Há, inclusive, duas igrejas evangélicas vindas do Brasil. Mais de 60% da população freqüenta os cultos cristãos, embora também haja, assim como no Brasil, pessoas adeptas tanto do cristianismo quanto das religiões por eles chamadas de “naturais”. Em torno de 13% dos ganenses praticam o islamismo. Ao mesmo tempo em que as igrejas cristãs trazem consigo algumas soluções para Gana, servindo de principal atividade de encontro social durante todo o dia de domingo, causam problemas de imensurável dimensão, tentando modificar totalmente o modo de pensar e agir dos ganenses, fazendo com que, em conseqüência, toda uma postura cultural, julgada sumariamente como ruim pelos colonizadores religiosos, seja perdida. Algumas igrejas, inclusive, servem de base para acorbertar atividades ilegais ou de fonte de renda para os benefícios pessoais de pastores, que circulam em carrões novos em meio à pobreza extrema, explorando e iludindo pessoas menos esclarecidas. Um inconsciente coletivo criado por esta presença de doutrinas religiosas alheias às crenças originalmente africanas parece criar a falsa idéia de que tornar-se cristão possa ser o contraste necessário, a redenção de todos os problemas sociais e financeiros, uma vez que sociedades consideradas evoluidas – assim um esclarecido professor universitário ganense tentou certo dia me explicar – não praticam religiões que têm como deuses orixás que se originaram, p. ex., de fenômenos naturais como o raio ou do sol.

As artes africanas, assim como muitas outras manifestações culturais, têm sua motivação primodial nas religiões. As esculturas de madeiras e diferentes tipos de máscaras servem para invocar e incorporar entidades superiores ou para solucionar problemas tópicos, como é o caso da boneca de madeira akuaba que ainda hoje é usada, amarrada nas costas das mulheres ganenses, simbolizando a fertilidade e, quando grávidas, para procriar filhos inteligentes e fortes. Tanto no Brasil quanto nos países do Golfo da Guiné esta tradição da escultura permanece. Observar Ibejis, o orixá jejê-nagô, no museu Afro-Brasileiro de Salvador[4], deixa isto muito claro. Lado-a-lado estão Ibejis, muito semelhantes, procedentes de Ifahin, no Benin, e da Bahia. Hoje o talento de trabalhar a madeira é usado como meio de subsistência dos dois lados do Atlântico, até mesmo trivializando, de certo modo, o trabalho artístico. Isto é consequência natural da presença de turistas, muitas vezes pouco interessados na real cultura e que somente em busca de experiências e coisas exóticas que poderão ser mostradas a amigos na sala de casa depois da volta ao mundo chamado ocidental e civilizado.

Mais de 60 línguas[5] africanas são faladas no Gana, várias delas parecidas, embora com variações gramaticais, lexicais, sintáticas e fonéticas. A língua é o depositário da identidade cultural de um grupo de pessoas, e no Gana elas seguem o conceito tribal: cada tribo tem sua identidade comunicativa, sua língua. Os principais grupos de línguas são o Ewe, o Ga, o Fanti, o Akan e o Twi, uma espécie de língua franca falada pela maioria dos ganenses. Além desse amplo aparato lingüístico, ainda há o Inglês, única língua oficial do país, herança dos colonizadores. O inglês, menos falado que o Twi, é a principal língua usada nos meios de comunicação e normalmente é falado por aqueles que tiveram acesso à educação formal oferecida pelo estado. Foi uma surpresa encontrar, dentro deste contexto linguístico fascinante e complexo, influências da Língua Portuguesa. Uma análise cuidadosa dirime esta surpresa, uma vez que os portugueses foram os primeiros europeus a ancorar na Costa do Ouro há mais de cinco séculos; além disso, houve, há menos de dois séculos, o fenômeno de retorno de libertos e escravos revoltosos expulsos do Brasil que tinham como língua principal o Português[6]. Este legado inevitavelmente também deixou suas marcas nas línguas utilizadas pelos ganenses. Nas ruas, pedintes solicitam esmolas em inglês com a expressão “dash me something, please”. “To dash” em inglês não é sinônimo de “to give”, significa “precipitar-se, arremessar, destruir”. Uma pesquisa mais cuidadosa revelou que “dash me” nada mais é que uma interferência do Português: “dás-me”. Da mesma maneira, houve numerosas interferências do Português nas línguas africanas faladas em Gana[7]. Em Ewe fala-se “abolo” e “sabola” para “bolo” e “cebola”; em Ga é possível ouvir “ayo” e “agúia” para “alho” e “agulha[8]”; já em Akan “prékoo” e “obra” significam “prego” e “obra”, enquanto que em Fanti “komidzi” e “tabu” equivalem às palavras “comida” e “tábua”. Há, ainda, fenômenos interessantes como a palavra Fanti “faka” que significa “garfo”, provavelmente fruto de uma confusão na hora da “apresentação” de objetos novos trazidos pelos portugueses ao continente africano.

Assim como é surpreendente ouvir um “dash me” nas ruas de Acra, também não é menos interessante ouvir relatos sobre a existência de uma tribo chamada Tabom, completamente integrada ao dia-a-dia da capital ganense e parte integrante da tribo dos Ga, dominante na área. Os Tabom são libertos e expulsos pela Revolta do Malês de 1835 do Brasil que retornaram à África e acharam sua acolhida definitiva em 1836 entre a tribo Ga na então cidadezinha de Acra. Os Tabom, na sua chegada a Gana, somente sabiam falar português, usavam os cumprimentos conhecidos “Como está?” e a resposta “Tá bom”, daí provavelmente a origem do nome “Tabom people” dado a eles pelo povo Ga. Eles tinham várias habilidades, foram muito bem recebidos pelo rei Ga e ganharam terras com localizações privilegiadas; nestas terras iniciaram plantações, inclusive com sistemas de irrigação, trazendo novas técnicas aprendidas no Brasil e melhorando, dessa forma, as condições econômicas e a vida de todos. Muitos também tinham especialidades prezadas e pouco dominadas na época pelos Ga: eram carpinteiros, alfaites, ferreiros, construtores, arquitetos etc que ajudaram no desenvolvimento comercial e na melhoria das condições sanitárias do país. A contribuição dos Tabom é muito mais extensa do que as melhorias estruturais por eles promovida. Como muitos em seu retorno eram islâmicos, eles ajudaram a consolidar o islamismo na capital, no sul do país, pois o islamismo era forte somente no norte; outros Tabom levaram de volta ao seu continente uma estátua de um xangô, ainda hoje preservada e guardada sob certo mistério e cuidados. Além disso, termos do português trazidos por eles foram incorporados às línguas locais, embora ele não seja mais falado atualmente. A culinária, a música, a dança e o jeito de vestir sofreram uma “re-influência”, refazendo o caminho cultural África-Brasil-África. Apenas a título de exemplo, é possível observar, em uma das fotos antigas dos Tabom, o chefe Tabom, de traços físicos semelhantes aos chefes Ga com quem está reunido, de terno preto e gravata, enquanto que seus colegas, na reunião de chefes com o rei, estão todos vestidos com túnicas longas e coloridas, bem à moda ganense.

Apesar de todas estas semelhanças, viver o dia-a-dia em um país como Gana também expõe muitas diferenças. A percepção do corpo é diferente da nossa; há muito espaço para vaidades, mas ainda não há a preocupação extrema em seguir e ser como modelos impostos pela cultura e pela mídia ocidental. Há modas, mas nada que faça todos parecerem ter as mesmas preferências. É interessante para mim, depois de um ano, voltar de férias para o Brasil em 2004 e ver que em Curitiba, cidade onde vivi oito anos antes de ir para a África, a imensa maioria das mulheres nas ruas com, pelo menos, uma peça de roupa cor-de-rosa. Há casos extremos de moças com combinações desde a sola dos sapatos, calças, cinto, blusinha, roupa íntima à mostra, faixa de cabelo e telefone celular nas mais diferentes tonalidades da cor rosa. Este tipo de fenômeno, principalmente gerado pelas mídias de massa, que transforma cada indivíduo em apenas um componente de uma massa homogênea, ainda não há em Gana. Lá as mulheres, por questões culturais e religiosas, não expõem tanto o corpo, não mostram jamais o umbigo, tão fácil de ser visto mesmo no inverno do Sul do Brasil. Nas praias, o traje feminino de banho e passeio é um vestido longo, enquanto que para os homens um calção ou mesmo a nudez são tolerados. Por outro lado, na cultura rural, na vida tribal, não há o menor problema para as mulheres em andar com os seios de fora. As necessidades fisiológicas, mesmo nas maiores avenidas da capital, têm prioridade. Urinar ou defecar, seja de frente para uma rua movimentada, em uma ponte ou na areia da praia, não exige nenhum pudor, afinal é apenas visto nessa cultura como necessidade comparável a respirar.

Outra grande diferença cultural está no modo de realizar os ritos de funerais. Em Gana faz-se festejos de funeral. A morte de alguém da família significa tristeza apenas no momento inicial e somente para os familiares mais próximos, normalmente os que conviviam com o falecido. Passado isto, a família deve ser reunida para planejar a festa de funeral, que acontecerá três ou quatro semanas mais tarde, em um final de semana, de sexta a domingo, quando todos tiverem a possibilidade de estar presentes. Durante este período, o cadáver fica em geladeiras apropriadas para sua conservação, enquanto que é feita a encomenda, para aqueles que seguem as religiões naturais, do caixão personalizado. Estes caixões são de tamanhos e formatos diferentes e alegres, pouco semelhantes com aqueles padronizados e lúgubres que temos. Se o falecido foi pescador, o caixão terá formato de sardinha gigante ou de réplica de seu barco de trabalho; um caçador valente terá um caixão imitando um leão, um pastor uma bíblia, um adorador de carros alemães um caixão estilo BMW ou Mercedes e o apreciador de cerveja será enterrado dentro de urna funerária em formato de garrafa enorme decorada com a marca preferida. No final de semana da festa, normalmente enterra-se o cadáver na sexta-feira. Logo em seguida começa a festa que durará até domingo à noite. Dependendo do poder aquisitivo da família, contrata-se uma banda, vários tipos de comida são preparados, tudo regado a chope, vinho, champanha, destilados e refrigerantes. Todas as pessoas que estiverem a fim de participar da festa podem comparecer, mas geralmente só há a “obrigação” de não deixar faltar nada aos convidados oficiais. Há casos de famílias que contraem grandes dívidas por causa da morte de um familiar; as festas de funeral exigem esforço colossal de todos os parentes próximos. Durante as três semanas de preparação as crianças deixam de ir à escola e os adultos não comparecem ao trabalho, o que é aceito culturalmente sem restrições. O falecimento é um evento social, que envolve danças, bebidas alcoólicas, alegria, uma forma de reencontrar parentes e amigos, uma oportunidade, p.ex., de jovens conhecerem pretendentes, tendo, só que em caráter mais amplo, a mesma função social que as igrejas desempenham aos domingos. A idéia primordial da festa de funeral era despedir alegremente a alma desta vida, para que ela pudesse ir em paz para encontrar, em outro mundo, seus antepassados de forma comemorativa, sem tristezas. Além disso, ela também tinha a função de acolher e alimentar pessoas que vinham de longe, de outras aldeias, após horas ou dias de caminhada.

Uma das mais interessantes vitrines de interpretação da cultura de um povo são as propagandas. Enquanto nós achamos muito normal associar o formato de uma garrafa ou o gosto de uma cerveja a mulheres belas, em Gana surte efeito o que pode ser chamado de “realismo fantástico”. Remédio que cura diarréias deve ter uma placa na rua com a ilustração de uma criança de cócoras sofrendo as conseqüências da disenteria; remédio contra impotência logicamente mostra o desenho de um homem grande e forte tendo uma ereção, ao contrário da nossa linguagem que prefere propagandas com jogos de palavras que permitam interpretações cheias de segundas intenções; um médico que trata hérnias coloca em frente ao consultório ilustrações com anomalias desproporcionalmente grandes nas mais diferentes partes do corpo; para mostrar a resistência de um reservatório de água na TV, monta-se uma cena de um acidente de caminhão, na qual o tanque transportado cai e desce rolando um morro enorme e não estraga. Estes são apenas alguns exemplos de propagandas efetivas em Gana que causariam estranhamento cultural e poucos resultados positivos para o anunciante, caso fossem usadas em nosso meio.

O papel de mulheres e homens na sociedade é muito diferente. As mulheres são vistas como as provedoras de filhos e, na maioria das vezes, também dos alimentos para a família. Em grande parte das tribos ganenses, mesmo nas de perfil urbano, o sistema de organização familiar é matriarcal. A mulher é chefe da família, coordena o dia-a-dia econômico e social e tem os direitos sobre a herança. Segundo relatos de vários ganenses, esse sistema é o mais fácil, pois todos têm certeza de quem é sua mãe, o que nem sempre acontece em relação ao pai, já que a poligamia, embora indesejada pelas mulheres, é tolerada por todos. Apesar de todo o trabalho doméstico, as mulheres também são responsáveis pela maior parte da entrada de recursos na família. Elas vão à feira vender o que produziram no quintal de casa ou foram colher na natureza. É comum ver mulheres carregando seus filhos amarrados às costas e uma grande e pesada bacia de produtos para vender na cabeça, acompanhada de seu marido, que caminha tranqüilamente de mãos vazias à frente dela.

Estar em um país com 99,8% de negros e ser branco impõe uma situação extremamente interessante, do outro lado da moeda, fazendo sentir e entender muitas das situações pelas quais passam negros no Brasil, embora estes estejam longe de ser uma minoria. Geralmente minorias são discriminadas de alguma forma, pelo simples fato de serem diferentes do “padrão”, sejam elas de qualquer origem. Em Gana, quando avistado um branco, é muito comum as pessoas berrarem por todos os cantos e em qualquer situação “hello oburoni”, o que significa “olá homem branco”. Comportamento deste tipo com, p.ex., afro-brasileiros ou descendentes de japoneses não seria tolerado nas ruas do Brasil. Segundo os ganenses, é apenas uma forma de bem receber estrangeiros, mesmo que oburonis não se sintam tão à vontade com a rotulação pública. Há várias implicações embutidades nesta atitude relativamente ingênua, que resultam, obviamente, em tratamento desigual.

Haveria a possibilidade de discorrer longamente sobre este e outros temas, mas a intenção deste artigo é de apenas fazer o registro de algumas impressões de vivências pessoais, mostrando muitas semelhanças e alguns contrastes que há entre as várias atitudes culturais brasileiras e as do Golfo da Guiné. Desse modo, esperamos ter contribuído, nem que minimamente, para que criemos consciência e valorizemos nossas raízes, os componentes formadores de um Brasil heterogêneo, múltiplo, sejam eles originários da África, da Europa, da Ásia ou das Américas. A ponte criada entre o Brasil e a África, embora seja fundamental, basilar para nossa cultura, muitas vezes é estranhamente por nós ignorada. O que sabemos nós da África? O que queremos saber? Quem renega suas origens renega a si mesmo.

Bibliografia

AKROFI, C. A. et allii. An English-Akan-Ewe-Ga dictionary. Accra : Waterville Publishing House, 1996.

BARATA, Mário et allii. The African contribution to Brazil. Rio de Janeiro : Edigraf, 1966.

GURAN, Milton. Agudás : os “brasileiros” do Benin. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2000.

LANGUAGE GUIDE. Akuapem-Twi Version. 3. ed. Bureau of Ghana Languages, Accra, 2000.

LANGUAGE GUIDE. Fante Version. 7. ed. Bureau of Ghana Languages, Accra, 1990.

RODRIGUES, Nina. Os africanos no Brasil. 4. ed. São Paulo : Editora Nacional, 1976.

SCHAUMLOEFFEL, Marco Aurelio. African influence in Brazil. Daily Graphic. Accra, v. 149.122, p. 7, 2004.

SCHAUMLOEFFEL, Marco Aurelio. Tabom: The Afro-Brazilian community in Accra. Daily Graphic. Accra, v. 149.143, p. 14, 2004.

SCHAUMLOEFFEL, Marco Aurelio. The African influence on Brazilian music. Daily Graphic. Accra, v. 149.132, p. 14, 2004.

SCHAUMLOEFFEL, Marco Aurelio. The Afro-Brazilian religions. Daily Graphic. Accra, v.14915, p. 9, 2004.

SCHAUMLOEFFEL, Marco Aurelio. The influence of the Portuguese Language in Ghana. Daily Graphic. Accra, v. 149.120, p. 7, 2004.

SCHAUMLOEFFEL, Marco Aurelio. The links between West Africa and Brazil in the Culinary Art. Daily Graphic. Accra, v.149137, p. 14, 2004.

VALENTE, Waldemar. Sincretismo religioso afro-brasileiro. 2. ed. São Paulo : Companhia Editora Nacional, 1976.

VERGER, Pierre. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos : dos Séculos XVII a XIX. São Paulo : Corrupio, 1987.

Notas:

[1] Do português „A Mina“, em referências às várias minas de ouro da região.
[2] Estes fatos são muito bem documentados e descritos tanto por Verger quanto por Guran (ver bibliografia).
[3] A festa de N. S. Do Bonfim é, aliás, também festejada, ao lado da festa da burrinha (chamada de “bourian”)  pelos “brasileiros” do Benin, como descreve o fotógrafo e antropólogo Milton Guran (2000: 126-168).
[4] Este museu é muito interessante, mas, apesar de ser bastante freqüentado por um grande número de turistas estrangeiros, infelizmente não apresenta explicações escritas ou orais em outras línguas, apenas no Português do Brasil.
[5] Ao invés de „línguas“ o termo „dialetos africanos” é comumente mais utilizado, embora estes “sistemas de comunicação” apresentem variações gramaticais, lexicais, sintáticas e fonéticas.
[6] Sobre o fenômeno dos afro-brasileiros que retornaram à África discorrerei mais adiante.
[7] Aqui serão apresentados somente alguns exemplos. O fenômeno da interferência do Português no Inglês e nas línguas africanas falados em Gana é bem mais amplo.
[8] Termo somente para utilizado para a agulha usada na confecção de redes de pescar.

Opinião: Heterossexualismo, homossexualismo, opção sexual, promiscuidade e preconceito

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12.02.2003 

Heterossexualismo, homossexualismo, opção sexual, promiscuidade e preconceito

Escrevo este texto sincero para um amigo homossexual, a quem estimo. Os conflitos culturais e os preconceitos que ele sofre são absurdos, tanto que não consegue assumir sua real condição perante a família. Acho que minhas considerações podem valer a pena. Vamos lá! Quem abertamente decide assumir o homossexualismo vive, mesmo no novo século, com toda a evolução alardeada pela sociedade que se diz civilizada, em meio a grandes pressões e sofre com as discriminações e os preconceitos. É injusto que alguém seja punido por sua opção sexual, por mais que alguém possa não concordar com a preferência expressa. A necessidade de formar relações-padrão faz a sociedade tratar esta opção como grave anomalia. Provavelmente não é correto seguir a maioria só por se tratar da maioria. Quantidade não é parâmetro nestes casos. Além de todas as dificuldades sociais já vividas e os desarranjos psicológicos decorrentes da própria situação de tentar viver com autenticidade a decisão tomada, muitos homossexuais acabam colocando barreiras ainda maiores no próprio caminho, como se sua opção já não fosse dificultosa o suficiente, exigindo o dispêndio de muita energia.

Para alguns não há clareza nos propósitos de vida, o mesmo vale, aliás, para muitos heterossexuais também, fazendo com que opção sexual acabe sendo sinônimo de promiscuidade. Ser homossexual é perfeitamente aceitável, é necessário ter clareza de que isso não tem a menor relação com ser homossexual promíscuo. Seria o mesmo que confundir a “opção” de ser mulher com a necessidade de ter atitudes de prostituta. Na prostituição ao menos há o objetivo claramente definido do lucro, a promiscuidade nem isto prevê, sendo simplesmente só destrutiva.

Além da promiscuidade ser fator de alto risco para a infecção através de doenças sexualmente transmissíveis, como já estamos cansados de ser esclarecidos pelas autoridades competentes, ela tem outros efeitos devastadores sobre os sentimentos e a psique dos envolvidos. Ter estabilidade sentimental e emocional é anseio natural de qualquer ser humano, independente de ser mulher, homem ou homossexual. Atitudes promíscuas destroem qualquer base de relacionamento que haja ou que se pretenda construir, desestabiliza qualquer ser humano, pois neste tipo de atitude há, na verdade, um profundo egoismo, que pode, inclusive, ser mútuo. Nestes casos há de tudo, inclusive a busca desesperada da estabilidade no lugar errado, menos uma verdadeira chance de complementação entre dois seres. Há, na verdade, somente a exploração no contato com outra pessoa, tanto corporal como sentimental, pois não é possível dissociar uma coisa da outra, com se alguém pudesse afirmar que “hoje só meu corpo vai estar presente neste relacionamento, a mente ficará em casa”. Não cuidar de si corporal e sentimentalmente significa se desvalorizar, se considerar um lixo, não ter amor próprio e pedir para também ser tratado desta forma, já que atitudes se espelham no comportamento surgido no contato; tratamento ríspido, por exemplo, provavelmente resultará em rispidez mútua.

Quem passa por situações desestabilizadoras tende a cometer o engano de procurar em novas situações desequilibradas o equilíbrio, que fica cada vez mais distante, a ponto de poder se tornar irrecuperável.

Não esqueçamos que anseios humanos como a estabilidade não são coisas que só os velhos e os caretas querem. Ridicularizar quem possui ou tenta alcançar estes objetivos, geralmente é defesa e reação de quem está longe disso e já deixou de acreditar na própria essência e capacidade. Assim começa a indiferença e a autodestruição. É por este motivo que drogados classificam os outros de caretas. Isto nada tem a ver com ser cool ou in, mas sim com a capacidade de saber o que se quer, com a vontade de ser feliz e ver sentido no ser e estar, ou seja, viver sua opção plenamente, na normalidade necessária para poder se sentir bem consigo e com o mundo no qual se está inserido.

Marco Aurelio Schaumloeffel


Source: Marco

Moro no Brasil

 

Moro no Brasil, de Mika Kaurismäki

Neve, vento cortante, frio alojado debaixo da pele. Ponto de partida: escandinávia. Ponto de permanência: Brasil. Ontem assisti em Bremen a Pictureum filme do finlandês Mika Kaurismäki, que mora no Brasil há dez anos, daí se explica o nome dado ao trabalho. Segundo a imprensa alemã, o documentário trata de ritmos nacionais, mais precisamente de samba, sendo uma espécie de  Buena Vista Social Club tupiniquim.  De forma engraçada uma revista faz alusão à diferenças de estilo, diferenciando samba de samba, dizendo que rapidamente se percebe diferenças entre o que parece ser a mesma coisa. Ledo engano. Kaurismäki faz muito mais do que isso. É uma verdadeira viagem musical que se inicia no sertão pernambucano e termina com o Funk’n Lata de São Paulo. Contado histórias pitorescas de personagens reais, o diretor, que viaja pelo interior do Brasil pobre com um velho jipe, mostra de forma nua e bela a simplicidade com que pessoas, muitas vezes sem oportunidade de acesso à instrução institucional, mas com enorme bagagem cultural e musical invejáveis, mostram ritmos e melodias complexas. A verdadeira música popular brasileira – sem maiúsculas ou abreviações – é o enfoque. Mesmo para os brasileiros o filme certamente passa a impressão do pouco que conhecemos desse lindo baú, empoeirado e jogado em algum canto, tão pouco valorizado e mostrado pela imprensa e os meios musicais do Brasil.

A música popular apresentada por Kaurismäki mostra todo o sofrimento, a alegria e a cultura das regiões por ele visitadas. A diversidade impressiona, a simplicidade contagia.

Visto no estrangeiro, certamente o filme peca, pois dá a impressão de que não existam dois Brasis díspares, de que há somente um país, rico musicalmente, miserável em sua infraestrutura. O que para nós parece claro faltou obveizar – me desculpem se crio neologismos – aos estrangeiros, já que primeiro rodou no exterior (e talvez nunca venha aos cinemas brasileiros); faltou a referência ao contexto popular, ao meio no qual esta música brota e está inserida, às discrepâncias que há entre as camadas sociais, à globalização americanizada da classe média. Sem essa didatização, que parece, a princípio, absurda, os menos informados em relação ao Brasil, ou seja, a grande maioria dos europeus, mesmo os que movimentam culturalmente o Velho Continente, deduzirá que somos, por excelência, favelas.

Ver músicos como Silvério Pessoa e Mestre Salustiano é deparar com a essência de um Brasil de beleza bruta, virgem com lábios de mel. Não assista ao filme com pretensões de achar um fim ou um começo. O bom do final é que fica a gostosa sensação de que Kaurismäki elucidou apenas uma migalha dessa vastidão.

Marco Aurelio Schaumloeffel

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain)  impõe audácia e desenvoltura, fazendo surgir uPicturem filme bem realizado. A arte brota de fatos absurdamente comuns e de absurdidades comunais. Amélie é o elo entre as várias personagens cotidianas, todas normais, porém loucas a sua maneira. Há beleza única no direcionamento de câmera; o show de imagens não está relacionado ao ambiente no qual o filme é rodado: Paris; ela reside, assim como todo o conceito de Amélie Poulain, em movimentos comuns como o subir em escadas, ver uma pedra saltar sobre a água, ter a perspectiva de quem observa o mundo da janela. O comum vira universal, tudo conduzido de forma bem humorada, vendo graça em tudo sem precisar cair em desgraça.

Com algumas troças Amélie modifica a realidade em sua volta, redundando na alteração do próprio cotidiano. Elementos humanos muitas vezes subestimados como a simplicidade de observar as ações de um vizinho ou do vendedor de frutas da esquina, a voracidade e a criatividade despertadas por uma paixão, a cumplicidade que não necessita de muitas palavras, afloram sem a necessidade de chamá-los à tela, de trabalhá-los como se fossem sexo explícito.

Ao espectador resta o consolo do privilégio de tê-lo sido e a impressão de que é e está diante de seres dotados da faculdade de uma das mais refinadas expressões de inteligência: a ironia séria. A película fica a milhas da ironia hollywoodiana, na qual, ao invés de sugerir a introspecção e o riso baseado na condição humana, o objeto filme é o alvo.

Em outras palavras, a diferença reside no propósito. O destino de Amélie certamente foi feito e não fabricado. Fabril: em relação à fábrica, à produção em larga escala. Atingir um grande número de espectadores é objetivo de qualquer filme. Neste jamais os fins justificarão os meios.


Marco Aurelio Schaumloeffel


Source: Marco

Discurso de Formatura – Colégio Suíço de Curitiba – 2001

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Discurso de Formatura para a 11. Série 2001

Prezadas Senhoras, prezados senhores, queridos formandos,

Nesta noite especial para vocês tenho a honra de ter sido escolhido como paraninfo. Gostaria de apresentar esta turma, segundo minha vivência com eles:

Aqui temos a Carol, moça preocupadíssima em não se perder pelas ruas de Köln, o Léo com suas habilidades musicais e o Lutero no KMK, o Mix, que ameaça seriamente o futuro de Bill Gates, o Tata com sua CPU sempre em funcionamento, desde que trancada em uma caixa chumbada, o Louis, sempre assediado e fotografado de todos so ângulos, o Hashmira preocupado em explicar o fenômeno da cobra voadora em Homo Faber e suas calças discretíssimas, o Henrique sempre sério, engraçado e sonhando com um Porsche, e o Mantovani, que acha aquele detalhe inútil na página 472 e ainda quer discutir a importância do mesmo para o ser pensante universal.

Depois de uma longa caminhada, que ainda está no começo, fazemos uma parada para reflexões.

Hoje é dia de cada um de vocês agradecer a seus pais, que foram decisivos até aqui. Sem o apoio deles teria sido muito difícil, senão impossível estar aqui. A nós professores não cabe agradecer, pois, entre muitas coisas, às vezes nós também ensinamos.

Tudo o que por vocês foi construído permite agora, aos poucos, experimentarem a independência, vocês estão sendo literalmente jogados ao mundo. Fazemos isso com a consciência tranqüila, pois sabemos que cada um de vocês tem uma base sólida de conhecimentos e vivências, adquirida em casa e na escola.

Jamais usem dessa base de conhecimentos para manipular quem não teve o privilégio de ter uma educação nesses moldes. Considero essa a forma mais perversa de exploração. Isso deve estar claro a cada dia, pois infelizmente nosso país ainda se apresenta ideal para este tipo „contravenção”. Só quem é pequeno sente a necessidade de passar por cima dos indefesos. E vocês não são pequenos.

A mediocridade e a cara-de-pau são outros atributos dos quais vocês não necessitam lançar mão, uma vez que a escola forneceu elementos suficientes para que vocês possam alcançar os objetivos traçados, sem que com isso atropelem vidas, atropelem a decência do próximo.

Assim explico o que se tornou uma das citações mais discutidas em nossas viagens pela literatura. Bertolt Brecht diz na peça teatral Leben des Galilei: „Wer die Wahrheit nicht weiß, der ist bloß ein Dummkopf. Aber wer sie weiß und sie eine Lüge nennt, der ist ein Verbrecher.”, ou seja, „quem não sabe da verdade é somente um ignorante, mas quem dela souber e a declarar uma mentira, este é um contraventor”.

Conhecimento é poder; jamais façam mau-uso dele para conseguir vantagens pessoais. A vida lhes dirá que isso só trará a felicidade superficial e momentânea.

Muito obrigado!

Marco Aurelio Schaumloeffel


Source: Marco

Dispersões

Curitiba
ökologisch
öko, logisch
egologisch
ego, logisch
ökologie
egologie

Curitiba, egologische Hauptstadt Brasiliens

Van Gogh
vão góg
vão gago
vã gagá
van
Besta

“Água mole me pedra dura
tanto bate até que acaba”

Statistik
statt this tick
tick this stadt
statt sterben
stadtsterben
auto statt sterben
auto stadt bahn
autobahn

O man
Eimer
Ozean
Ein Meer
Ozean
Ein Meer
Oh Cian

Skt. Martin, der Mantelfahrer

Der Arme
Nicht unbedingt kommt er
Immer warten Kinder auf ihn
Kommt er, hat er wenig
Ohne Geld, keine Geschenke
Lehrer sagen das Gegenteil
Aber das sind Illusionen
Und käme er wirklich
So würde er betteln